ANA FLOR

Intervenção doméstica

Pão é alimento cotidiano, é trabalho doméstico, é nutrição básica. Pão é o corpo perecível que a artista, a partir de intervenções manuais em objetos que remetem a economia do cuidado, os transforma em suporte para linguagem. A dinâmica entre criar filhos e criar arte é convocada ao inventariar o doméstico na arte. Ao convocar esses objetos ao gesto de criação, questiona a etiqueta social e a função artista entre as brechas da maternidade, ou vice-versa. As palavras operam como afirmação e reinvindicação de espaço e centralidade. O trabalho é um dossiê e um manifesto, as funções de criar estão em permanente negociação.

O processo de criação parte de gestos ordinários: cozinhar, alimentar, servir, limpar e bordar são convertidos em procedimentos artísticos. A repetição desses fazeres evidencia o caráter cíclico e muitas vezes invisível do trabalho reprodutivo, ao mesmo tempo em que reivindica sua potência simbólica. Ao inscrever palavras em superfícies destinadas ao consumo e ao desgaste, a artista aproxima linguagem e matéria, tornando visível a tensão de criar enquanto se cria filhos. Entre o alimento que nutre, o objeto que se deteriora e o bordado que insiste, a obra constrói um campo de reflexão sobre cuidado e trabalho, deslocando experiências frequentemente confinadas ao espaço privado para o centro da narrativa artística.

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Entre a Dor e a Flor