ANA FLOR
Relicário
Relicário reúne imagens que não permanecem inteiras. Voltam como casca, mancha, linha, flor seca, fotografia quase apagada. A pesquisa é uma arqueologia própria, conduzida de uma maneira não linear, com arquivos próprios e alheios, que funde a narrativa da maternidade a um contexto de solidão e sobrevivência, ao da artista, que em busca dessa história, refaz pelas imagens o vínculo com o passado.
A série articula fotografia, arquivo vernacular, matéria orgânica e objetos cotidianos para construir uma narrativa em torno da origem, da maternidade e das ausências. As matérias são deslocadas de sua condição inicial e operam como pequenos corpos de transformação. Não preservam o passado intacto; antes, revelam sua instabilidade.
Ao aproximar fotografias da artista grávida e de sua mãe também grávida, Relicário cria um campo de espelhamento entre tempos. A filha que olha a mãe grávida reencontra, em seu próprio corpo, uma imagem de inflexão. Ao mesmo tempo, reconfigura a única imagem do pai consigo, o ponto cruz sobre a silhueta no tecido surge como gesto de sinalização da falta, não no silêncio, mas na marca presente e constante deste "não estar". O uso de arquivos alheios configura uma remontagem ficcional, que inaugura na série uma narrativa universal da maternidade e do trabalho do cuidado como tarefa unilateral.
Portanto, a série também se constrói a partir de ausências que atravessam as imagens como ruído. Pode essa história ser a da minha mãe e de tantas outras. É sobre lembranças que seguem germinando na matéria, no corpo e nas relações afetivas e precisam submergir para recontar-se.