GABRIELA FAGUNDES
Nascimento
Quando fiz a meditação pela primeira vez, não consegui finalizar a ideia que veio na minha cabeça. Havia mergulhado um autorretrato impresso em papel fotográfico em água quente para tentar deixar o papel fotográfico transparente, pois queria fazer uma cianotipia com ele... o ideal seria usar fotolito, mas comprei o fotolito errado pra minha impressora pela 2ª vez seguida. Depois de um tempo pensei que tinha conseguido chegar no ponto certo de transparência da fotografia, e deixei ela secando. Pra me sentir mais segura, imprimi outros autorretratos em papel sulfite na impressora, só pra ter o que mais utilizar caso o plano desse errado, mas fiquei insegura de usar, pois tinha certeza que a folha sulfite não iria resistir a água se eu tentasse cianotipia com elas, então deixei de lado.
Hoje escutei o áudio da meditação por umas 4h, acho que umas 3 semanas depois dessa primeira meditação e primeira tentativa de criação, e tentei de novo. Primeiro sensibilizei um papel 300g com as soluções a e b de cianotipia, derramando o químico no centro e tentando fazer com que a química fluísse naturalmente para as bordas, virando o papel pra lá e pra cá. Queimei as bordas da tal da foto “transparecida” com água quente, posicionei no cianótipo e deixei no sol das 12h por uns 5 minutos. Estava 31 graus na cidade e o químico perdeu a cor rapidamente, e pensei: "caramba, certeza que ficou lindo!". Mergulhei o papel na água e a imagem que tinha ficado sensibilizada, foi pro ralo junto com o excesso, permanecendo no papel apenas o que me lembrou "tentáculos de neurônios", com uma mancha branca no meio, que também me lembrou a forma de um coração opaco e abstrato. Pensei em corrigir a falha sensibilizando novamente a parte central que havia ficado branca/opaca com a mesma técnica, respingando um pouco mais de químico ao redor e sobrepondo um outro autorretrato, agora em um fotograma 35mm que eu também já havia queimado as bordas no mês passado.
Enquanto esperava o cianótipo secar para expor ao sol pela segunda vez, comecei a jogar suco de uva no mais novo fotolito que comprei errado, porque precisava liberar a garrafa de suco pra guardar químicos, e também porque queria achar uma utilidade para eles. Achei curioso como o suco parecia fluir naturalmente pelo caminho que ele mesmo trilhava, sem querer desviar para “fora da estrada”, ainda mais fluido que o químico da cianotipia em papel 300g, suavizando minha rigidez com o erro anterior como se me dissesse que aquele era mesmo o caminho certo, o processo certo, mesmo “errando”.
Achei linda a cor do suco no fotolito e pensei em utilizar de alguma forma em uma cianotipia, então acabei resgatando um dos autorretratos que havia imprimido em folha sulfite e primeiro sensibilizei ele com os químicos de cianotipia pra ver no que dava… eu queria ficar azul na foto. Quando mergulhei a folha na água depois da exposição no sol, o químico saiu quase completamente, acho que pela baixa absorção do papel, e pela sua fragilidade, começou a se despedaçar. Rapidamente peguei uma folha 300g em branco para usar como base e tentar reposicionar a foto despedaçada. Me encantei com a forma em que o papel se despedaçou e logo pensei que era ali que eu tinha que jogar o magenta do suco. O resultado me remeteu diretamente aos dois processos anteriores: o desejo de me colocar no coração abstrato de uma “criação neural”, deixando resquícios azuis sobre minha pele, e a aceitação de simplesmente permitir a vida fluir, colorindo os rasgos de um corpo frágil, como quem convida para ver aquilo que conseguiu fazer das próprias feridas.
Finalizei expondo o primeiro cianótipo no sol novamente e finalmente me pareceu dar certo. E me vi ali, seguindo o fluxo natural dos acontecimentos, como se me lembrasse perfeitamente de cada palavra dita por Irmina durante a meditação.